Marina Barbosa Pinto é docente do Departamento de Serviço Social da UFF e pesquisadora na área de movimentos sociais e cidadania. Além do trabalho dedicado a docência e a produção acadêmica, Marina sempre atuou no movimento docente, exercendo importantes cargos de representação da categoria. Foi presidente do ANDES-SN, na gestão 2004-2006, e presidente da ADUFF entre os anos de 2008 e 2010.
Em entrevista concedida à APUFPR-SSind, a candidata a presidente do ANDES-SN, analisa a atual conjuntura do movimento docente e do movimento geral, fala sobre a importância do Sindicato para a categoria e sobre os desafios da próxima gestão.
APUFPR-SSind - Como se deu o processo de formação da chapa e quais os posicionamentos políticos que definem o grupo?
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Marina Barbosa Pinto - O grupo que compõe a chapa se organiza há muitos anos na base da categoria docente. Ele tem uma expressão pública condensada em dois grandes princípios, que são autonomia e democracia. Nos baseamos na certeza de que o sindicato deve funcionar pelas suas próprias organizações e pela sua sustentação na base – a partir de uma relação independente politicamente das administrações locais, dos governos, dos credos religiosos e dos partidos políticos – e de que as decisões são tomadas de fato pelos docentes nas suas instâncias de organização, como as assembleias de base, os congressos e os conselhos nacionais (Conad). Junto com isso, optamos pelo enfrentamento, pela luta e pela proposição permanente de alternativas a tudo aquilo que nós consideramos estar incorreto. O ANDES é um dos sindicatos que, a partir da democracia de base e da construção coletiva, consegue propor alternativas para temas que envolvem a educação e seu papel como um centralizador de um processo alternativo pra sociedade brasileira.
APUFPR-SSind – Como você avalia a conjuntura a ser enfrentada pela próxima gestão do ANDES-SN. Quais são as principais bandeiras e enfrentamentos que o movimento docente terá nesse próximo período?
Marina - O sindicato congrega na sua base professores das universidades estaduais, federais e particulares. A partir disso, pensamos em um enfrentamento estratégico de lutar por proposições que viabilizem melhores condições de trabalho para o professor, em qualquer instituição onde ele estiver, para depois avançar nas ações pelo aumento do financiamento da educação pública brasileira. Esses dois desafios dão sentido à existência do sindicato. Vamos sempre lutar pelos direitos do professor, por suas condições de trabalho, por salário, por carreira, por isonomia, por paridade, para que o docente seja valorizado pelas responsabilidades que tem diante da formação de novos profissionais pra sociedade. Isso sem deixar de lado a defesa de um projeto de educação que envolva recursos somente públicos, que englobe a ampliação do acesso e que possibilite as condições para que a educação possa responder como elemento central na vida e na organização da juventude, dos filhos de trabalhadores e de toda a população brasileira. É através desse processo que vamos avançar, não só na qualidade de vida de cada cidadão, mas também na resolução coletiva de problemas estruturais da sociedade.
APUFPR-SSind - Para o fortalecimento do instrumento sindical que é o Andes-SN, quais devem ser os principais desafios da próxima gestão?
Marina - Um conjunto de instituições, de personalidades e os eventos nacionais do sindicato reafirmaram a legitimidade do ANDES-SN e estão lado a lado conosco na defesa dele como um instrumento fundamental para os docentes e para a sociedade brasileira. O governo federal, ao ver que o ANDES não se dobrou à sua política, que não se rendeu aos seus cantos e encantos de atrelamento e que não abriu mão da sua autonomia, nos enfrentou viabilizando a construção de uma entidade paralela. Nas instâncias do sindicato e nas ações das diretorias anteriores fizemos uma disputa política e jurídica, que nos deu o direito de seguir existindo e reconheceu a nossa legitimidade. Essa é uma disputa que precisa ser efetivada na base da categoria e precisa ser sustentada. Na lógica das duas gestões do Lula, pertencemos a um segmento dos movimentos sociais que, por não estar atrelado, não é bem-vindo no debate nacional. O nosso desafio vai ser manter a existência do sindicato, o diálogo com a sociedade e o fortalecimento na categoria.
APUFPR-SSind - O movimento docente passa por um período de refluxo e de dificuldade de mobilização. Como o Sindicato pode atuar nessa conjuntura?
Marina - Essa não é uma realidade presente só na categoria docente. Existe um processo de defensiva da classe trabalhadora em âmbito mundial - a nossa luta hoje é evitar maior perda de direitos. Além disso, o que afeta a categoria docente é a sobrecarga de trabalho e a falta de reconhecimento. Hoje o professor se vê no meio de uma rede de afazeres que exige cada vez mais dele e o obriga a enfrentar um maior número de alunos, de publicações, de participações em eventos, de orientações e uma presença política mais intensa na administração da universidade. Há também uma ideia de que o coletivo já não ajuda mais, que o que serve são as alternativas individuais. Essa é a lógica de funcionamento da universidade, com o seu processo de privatização interno, com as fundações de apoio, com as exigências do Capes e do CNPq, com a disputa e a competitividade sendo o elemento central do trabalho. Assim, o professor é absorvido por essa lógica e não se dá conta de que o seu cotidiano está cada vez mais distanciado do sentido real do seu papel. Mas isso não é um processo dado. Alguns professores novos que entraram nas universidades federais ministram um número superior de aulas e não podem ter seu tempo reservado para pesquisa e extensão, que é o sentido do trabalho docente. Quando o sindicato se aproxima e coloca a realidade, eles procuram o ANDES-SN como um espaço que pode defendê-los.
APUFPR-SSind - Uma das ações estratégicas do sindicato é a atuação com relação às condições de trabalho dos professores. Como você avalia a necessidade de priorizar o trabalho mais próximo da categoria e das seções sindicais nesse momento da luta dos trabalhadores?
Marina - Esse é um período difícil, particularmente para as universidades que se relacionam com o governo federal. No âmbito estadual, as universidades são muitas vezes protagonistas de implementação de políticas de descaracterização da carreira docente e de restrição de direitos. O ANDES-SN precisa construir o seu movimento de baixo para cima e, para aprofundar esse trabalho, é preciso uma atuação mais efetiva das regionais dentro das universidades. Só assim o sindicato pode avançar como organizador e formulador das políticas gerais e, ainda, pode ser um elemento aglutinador e de execução das proposições em todo o Brasil. Esse é um grande desafio, que vai enfrentar não só as dificuldades de um país continental, mas as dificuldades da disputa ideológica dentro da universidade, da disputa com administrações e com cada professor – que precisa ser ganho de novo para uma perspectiva utópica, de que o trabalho docente só é desenvolvido plenamente por meio de um espírito coletivo e de um debate aberto. Mas nós não vamos resolver essas questões somente voltados para dentro das universidades. Será necessário o diálogo com outros movimentos sociais e principalmente com a sociedade.