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10/03/2010

APUFPR-SSind relembra a luta das mulheres em evento que uniu debate político e cultura

A APUFPR-SSind realizou, no dia 8 de março, o Café com Mulheres, evento que lembrou o histórico de luta das mulheres por melhores condições de trabalho e por sua emancipação política e social, que se convencionou chamar de Dia Internacional da Mulher. O evento, que reuniu cerca de 70 pessoas, contou com uma mesa-redonda para discutir o papel da mulher na contemporaneidade, além de um espaço de confraternização com o show da cantora e docente do departamento da Antropologia da UFPR, Selma Baptista, que apresentou um repertório especial de canções sobre mulheres.
A presidente da APUFPR-SSind, Astrid Avila, destacou a importância de se entender o 8 de março não apenas como uma data festiva que homenageia a existência das mulheres, e, sim, como uma data que rememora o histórico de lutas e enfrentamento por melhores condições de trabalho e de vida.
“Vivemos em uma sociedade extremamente patriarcal, com raízes ainda escravocratas. Obviamente, isso delega um lugar, para o trabalho das mulheres, de inferioridade em relação ao trabalho dos homens. Nesse sentido, é necessário que primeiro as pessoas tenham clareza e conhecimento dessa condição para que depois possam lutar contra esse tipo de opressão, que acontece também na universidade. É nosso papel trazer essa discussão à tona para que as pessoas se percebam nesse contexto e possam, a partir disso, tomar atitudes diferenciadas, que não simplesmente reproduzam o modelo patriarcal”, defende.
Trabalho, saúde e gênero
A primeira atividade do Café com Mulheres foi uma mesa-redonda que tratou da situação da mulher na contemporaneidade sobre três eixos: trabalho, saúde e gênero. O professor da rede estadual do Paraná, Nilo Silva Pereira Netto, destacou a centralidade do trabalho para entender a forma como se configuram as relações sociais de classe e também as relações de sexo na divisão social do trabalho em uma sociabilidade capitalista. “A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão social do trabalho decorrente das relações sociais de sexo. Essa forma é adaptada historicamente, conforme cada sociedade. Ela tem como característica a distinção prioritária dos homens na esfera produtiva e das mulheres na esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apreensão pelos homens das funções de forte valorização social”, pontua.
Lígia Cardieri, socióloga e especialista em saúde pública e epidemologia da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, falou sobre a necessidade de se lutar por políticas públicas que visem à atenção integral à saúde da mulher. Também destacou a importância do autoconhecimento sobre o corpo e o bem-estar feminino como forma de exercer autodeterminação na escolha dos métodos de tratamento. “As políticas públicas de saúde precisam incentivar e dar condições às mulheres para que conheçam o seu próprio corpo, que possam confrontar o seu médico na hora da consulta e desconstruir falsas verdades”, destacou.

Educação e gênero
A professora do departamento de Educação Física da UFPR, Maria Regina Ferreira da Costa, citou exemplos cotidianos de opressão contra mulheres, como os casos das universitárias Ana Cláudia Caron, violentada e assassinada em Almirante Tamandaré em 2007, e de Geisy Arruda, assediada moralmente na universidade particular onde estuda. Maria Regina ressaltou também a importância de se inaugurar práticas escolares novas, pautadas em uma educação não sexista, visto que a escola é um espaço importante para a formação da identidade de gênero. “Investigações revelam que professores e professoras transmitem a subordinação dos gêneros de forma inconsciente. Isso acontece através da valorização diferenciada e hierarquizada das atitudes de meninos e meninas. Para o gênero, o masculino é o modelo, a referência, e cabe à mulher alcançá-los ou adequar-se”, explica.


Mulheres e a Universidade

O debate sobre gênero foi o tema principal não só nas apresentações, como também nas mesas, entre as professoras. Para a docente Simone Rechia, do departamento de Educação Física, a discussão promovida pelo sindicato é extremamente importante para lembrar os professores do papel da Universidade. “A partir do momento em que o educador estiver mais sensibilizado com as causas relacionadas ao gênero, pode ser que consigamos ter um equilíbrio um pouco melhor entre as relações de trabalho, sociais e tantas outras”, afirma.
Quanto à discussão a respeito da mulher no mundo do trabalho, Marlene Meira, que trabalhou 36 anos como docente e hoje é aposentada, conta que teve seis filhos durante o período em que lecionava. “O meu trabalho foi o grande suporte para que eu mantivesse essa família”, explica a professora, que, mesmo enfrentando dificuldades, considera-se realizada profissionalmente.
De acordo com Simone, com esses avanços da mulher no trabalho, houve também conquistas na sua participação na universidade, mas ainda existem relações de poder e desequilíbrio de gênero muito fortes no mundo acadêmico. Ela conta que, por exemplo, só homens chefiam o departamento de Educação Física. “Em contrapartida, cabe às mulheres coordenar o curso. Existe uma questão hierárquica preconceituosa aí”, considera.
Para ambas as professoras, as discussões promovidas no evento pela APUFPR-SSind têm grande importância para explicitar e diminuir o preconceito dentro e fora da universidade. “Os professores expuseram assuntos novos para um tema que estamos debatendo há tempos”, conta a aposentada Marlene. A forma como o sindicato comemorou o dia da mulher também surpreendeu. “O evento juntou cultura e música com o debate acadêmico de uma forma fantástica. Agregar cultura e conhecimento é uma das condições básicas para o exercício político”, comemora Simone.
 
 

 


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