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19/02/2010
Roberto B. da Silva Sá: "Em nome de zumbi"


No findar de janeiro, foi realizado no belo campus da Universidade Federal do Pará – Belém – o 29º Congresso do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), do qual participei como um de seus delegados, representando a Adufmat (Seção Sindical dos Docentes da UFMT). 
O referido evento foi pautado pela seguinte temática: “Contrarreforma universitária, ataques à carreira e ao trabalho docente: desafios do Andes-SN na luta em defesa da Universidade Pública”. 
Já a partir do tema do Congresso do Andes-SN é possível perceber o quão tem sido difícil a luta dos docentes para a manutenção da qualidade das atividades acadêmicas. Diferentemente do que muitos imaginavam, a lógica neoliberal, adotada por todos os governos pós-ditadura, não teve um “stop” com a chegada de Lula-PT à presidência da República; ao contrário, essa perspectiva política foi acentuada, mas com requintes de sofisticação de deixar velhos direitas embasbacados. Por conta disso, muita gente ainda tem tido dificuldade de perceber as manobras e os movimentos governistas. 
Assim, o governo vem alterando a essência das universidades. Um recente Plano de Reestruturação (Reuni), permeado pela vertente quantitativa – principalmente no item expansão de vagas nas federais – é um dos exemplos. Para “aderir” ao plano, há um valor de troca com as administrações superiores: transformar os campi universitários em canteiros de obras, em geral, mal feitas e concluídas às pressas. Em outras palavras, mais um golpe eleitoreiro de Lula/PT, visando à perpetuação nos espaços de governo. 
Concomitantemente a isso, também vem sendo drasticamente alterada a carreira do magistério do ensino superior. Pior: como a maioria dos professores já absorveu a dinâmica produtivista de seu labor – cruel contra sua própria saúde física e psicológica – muitos não conseguem entender o que está se passando. É incrível! 
Mais: ao alterar a carreira e incentivar o produtivismo, o governo impõe às universidades – quase todas servis à sombra do rei barbudo – mudanças na dinâmica de todos os trabalhos acadêmicos. Na UFMT, exemplo recente foi a aprovação – por um de seus órgãos superiores – da redução de horas destinadas à pesquisa. Um docente com dedicação exclusiva que dispunha de vinte horas semanais para suas pesquisas, agora, dispõe apenas de dez. Como esse tempo é insuficiente para tal atividade, haverá sobrecarga de trabalho ainda maior, incluindo finais de semanas e feriados. Por incrível que pareça, esse chicote também é absorvido por muita gente. Por sua história de luta, Zumbi dos Palmares, se fosse vivo, e se fosse um professor, não aceitaria isso jamais. Revoltar-se-ia. Mas há quem aceite. Está faltando o brio de Zumbi nas universidades. 
Por falar em Zumbi, o Congresso do Andes-SN enfrentou um dos seus mais atuais dilemas: políticas afirmativas e cotas. Depois de muitos embates por meio dos discursos entre os participantes, o Andes aprovou que deve “lutar pela implementação de políticas afirmativas, como parte das políticas universalistas de acesso à educação em seus diferentes níveis e modalidades, com a garantia de permanência, bem como o acesso à pesquisa e ao mercado de trabalho”. Na mesma direção, também foi aprovado que o Andes-SN deve se “posicionar favoravelmente ao sistema de cotas, como política transitória para a universalização e permanência à educação superior”. 
De minha parte, pus-me ao lado dos oradores contrários a isso tudo. Todavia, a maioria dos presentes não se convenceu de que essa decisão, além de não ir ao cerne do problema, começa a desviar a centralidade do Sindicato Nacional dos Docentes. Em outras palavras, o ANDES-SN fez, espero que apenas circunstancialmente, opção por grupos e não por classes sociais, como lhe tem sido histórico e caro desde sua origem. 
No mais, para mim, o Congresso do Andes-SN deixou uma dúvida: será que Zumbi apostaria em políticas afirmativas e cotas para, quem sabe, um dia, ver todos os negros incluídos socialmente e livres do racismo? Creria ele em “transitoriedade” de tais políticas, que são absolutamente confortáveis ao capital? Particularmente, não creio nem nessas políticas e nem na inocência de Zumbi que nunca tangenciou sua luta. 

*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. É Professor de Literatura da UFMT 
rbventur26@yahoo.com.br

Fonte: Diário de Cuiabá

 
 

 


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