01/02/2010
APUFPR-SSIND entrevista Hellen Jaqueline Marques
“É preciso entender a dança como uma forma do ser humano compreender sua história”
As aulas de dança de salão da APUFPR-SSind retornam nesta segunda-feira, dia 1° de fevereiro. Para marcar o reinício das atividades, entrevistamos a professora Hellen Jaqueline Marques, do departamento de Educação Física da UFPR. Especialista em Educação Física Escolar e mestre em Educação pela instituição, Hellen trabalhou com dança de salão com crianças e adultos e foi professora da rede municipal de ensino durante três anos. Nessa entrevista, a docente apresenta a dança sob uma perspectiva crítica e aponta a necessidade de se entender a atividade como uma manifestação cultural construída historicamente.
APUFPR-SSind – A dança de salão é vista predominantemente na nossa sociedade como uma forma de entretenimento. Qual seria a outra forma de compreender essa atividade?
Hellen Jaqueline Marques – Nós temos que tratar a dança não apenas como uma atividade para distração. Mais do que isso, a dança é uma manifestação da cultura humana, da cultura corporal. É preciso entender a dança não só como atividade pela atividade, prática pela prática, mas entender a dança como uma forma de o ser humano compreender sua história, compreender como a dança foi construída e de que forma pode ser apropriada pela sociedade em diferentes momentos: como a mídia incorpora a dança, por exemplo, como nós, professores, podemos incorporar a dança, como um aluno pode incorporar a dança na sua realidade e usá-la como instrumento para compreensão dessa realidade.
Um dos grandes focos quando nós trabalhamos com dança é, primeiro, entender que o ser humano faz parte dessa história na construção do que é a dança, de quais modalidades devem ser trabalhadas, de como ela chegou a ser constituída como é hoje. Tendo isso como foco, a pessoa que participa de alguma manifestação da dança se sente próxima do que faz e não alheia, distante. Acredito que isso faz a dança muito mais significativa para o ser humano, quando está dançando e quando está assistindo, também.
APUFPR-SSind – Que características podem ser desenvolvidas no trabalho com a dança de salão?
Hellen Jaqueline Marques – A dança de salão tem algumas características específicas, que são principalmente o par, a condução; tem estilos, passos, técnicas próprias. Acho que qualquer estilo de dança não pode negar que a técnica é muito importante, mas não é preciso virar refém dessa técnica, e sim ter a técnica como base, como um conhecimento construído sobre aquela modalidade, sobre aquela prática. A técnica da dança é um conhecimento científico que deve ser apropriado pelo aluno, mas também deve ser um meio para que ele possa, a partir dessa técnica construída, elaborar novos passos, novas significações para a dança.
É possível explorar a criatividade do aluno e questões importantes para nós hoje socialmente, como o contato corporal, as relações de gênero, o permitir ser tocado e se permitir tocar outra pessoa. A dança de salão enquanto prática da cultura corporal nos propicia entender o que significa o toque, o toque com respeito, toque com carinho, toque da amizade, toque da dança. Não só a técnica em si, não só o dançar em si, não só a prática pela prática, mas também as relações sociais, as relações humanas que permeiam a dança de salão. A dança de salão também nos possibilita conhecer outras formas de manifestação cultural, por meio das danças de outras regiões, outros países.
APUFPR-SSind – Nos últimos anos, a dança de salão recebeu destaque na mídia, o que resultou em uma grande expansão das escolas e academias. Como você analisa esse fenômeno?
Hellen Jaqueline Marques – Teve um momento em que a dança de salão virou moda, principalmente por causa dos programas de televisão. Foi uma forma de a dança de salão ganhar certo status, certa popularidade. No entanto, ganhou popularidade uma forma limitada de dança, a dança de salão espetáculo, a da técnica pela técnica. Nesse sentido, a dança ignora qualquer outro aspecto crítico de conhecimento que possa obter. Ignora inclusive esses espaços de ensino da dança que tratam a dança como uma arte.
Conhecer uma dança típica brasileira, uma dança nacional, também significa entender de onde ela veio, de onde surgiu, por que, qual foi sua construção histórica e por que hoje é ou não é negada. E a dança com o objetivo da espetacularização ignora esses aspectos mais críticos, fundamentais para o ensino da dança. Ela trata a dança como uma dança técnica: o homem conduz a mulher, e os passos estão certos, coreografados; pode ser coreografada pelos bailarinos como pode não ser, ou os dançarinos simplesmente obedecem certa sequência coreográfica de algum outro professor. Assim, a dança perde suas características educativas, ela perde suas características críticas de conhecimento, reflexão, de reconhecimento enquanto cultura corporal e vira só uma dança de espetáculo, feita para ser vendida como uma mercadoria e não mais como uma cultura construída historicamente pelo homem.
APUFPR-SSind – A dança de modo geral é uma forma das pessoas conhecerem melhor o próprio corpo e as suas possibilidades de movimento. A dança de salão também tem esse papel de promover o autoconhecimento?
Hellen Jaqueline Marques – O autoconhecimento é um dos fatores importantíssimos para a dança. Você reconhece aquilo que é possível, reconhece suas limitações e reconhece que o possível pode ir além daquilo que a gente imaginou no início. Principalmente quando entendemos que dança é muito mais do que aquilo que aparenta ser hoje na sociedade. A dança de salão traz muito esse limite para o ser humano, principalmente porque nós não estamos acostumados a ficarmos tão próximos um do outro. A nossa formação hoje na sociedade nos leva a sermos mais individualistas. A questão do toque e do abraço, do gingado, do mover o quadril na dança viraram tabus para as pessoas. Não só na dança, mas principalmente em relação ao movimento corporal. Esse é o limite do ser humano e muitas vezes as pessoas procuram a dança de salão justamente para superá-lo. Então, a pessoa se reconhece na dança enquanto possível. Ninguém nasceu sabendo dançar, a dança é um aprendizado, é um conhecimento que nós construímos juntos.
APUFPR-SSind – O homem que decide dançar enfrenta muito preconceito na nossa sociedade, mas na dança de salão isso é um pouco diferente. Como você avalia o machismo na dança e principalmente na dança de salão?
Hellen Jaqueline Marques – O homem sofre preconceito em outras danças, enquanto na dança de salão é supervalorizado. É ele quem conduz, quem comanda a dança. São dois lados, duas formas de se ver o homem que dança. Isso reflete, sim, uma sociedade machista em alguns momentos. Nós temos que mostrar para o aluno que, se a mulher tem um conhecimento a mais sobre a dança, ela consegue conduzir da mesma forma que o homem. A dança pode ser um trabalho conjunto, no qual em determinados momentos eu posso conduzir, em determinados momentos o meu parceiro pode conduzir. Isso não descaracteriza a dança, muito pelo contrário. Dá novas possibilidades de criação, de pensar a dança sob diferentes perspectivas. A gente pode extrapolar esse estigma do casal ideal, em que é sempre o homem que conduz a mulher, entendendo que a dança é um par, um trabalho conjunto, e que os dois podem participar dessa forma de dança.