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01/01/2010

 

Nós, os mortais, e o rumo da crise econômica
Por  Hamilton Octavio de Souza

Uma coisa a gente sabe com certeza: nem os economistas nem os demais gênios do universo são capazes de prever as crises do capitalismo. Se alguém sabe, não tem convencido ninguém ou está escondendo o jogo pra valer. Em 2008, a crise veio forte e pegou de surpresa não só os economistas, mas o mundo todo que estava apostando no neoliberalismo como o paraíso na Terra. Por isso mesmo, a melhor postura no momento é duvidar que a crise tenha passado e ficar atento às conseqüências das medidas concretas adotadas aqui e ali, no Brasil e nos principais centros econômicos. 
Numa coisa os marxistas acertam em cheio: o capitalismo é um sistema político-econômico que gera permanentemente as suas crises, precisa gerar crises, inclusive as guerras, especialmente para provocar novos movimentos de exploração do trabalho, de transferência e de acumulação de riqueza; e a crise atual é uma crise estrutural, não se trata de apenas um ajuste do sistema, mas do funcionamento do próprio sistema. 
Portanto o que temos a fazer é verificar se algumas das medidas adotadas para conter a crise surtiram efeitos positivos, seja para barrar o seu aprofundamento, seja para protelar ao máximo uma nova erupção. Primeiramente vale registrar que os centros econômicos, dessa vez, sofreram mais do que a periferia, diferentemente de outras crises ao longo do século 20. Isso não quer dizer que a periferia, pela dependência e submissão, não tenha de pagar pela crise gerada no coração do sistema.
Também vale registro que o deus mercado foi obrigado a se render ao Estado, que entrou na arena privada para cumprir o papel de grande salvador da pátria. Se nos Estados Unidos o governo se tornou sócio – até majoritário – de bancos, da indústria automobilística e de outros setores quebrados, aqui no Brasil o governo continua raspando os cofres públicos (BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, FAT etc) para socorrer a indústria, o comércio, os bancos, o agronegócio e o diabo – tudo para não deixar que a quebradeira se alastre e cause estragos reais nos capitais, nos patrimônios e na vida das pessoas.
É claro que nesse processo tem acontecido uma brutal transferência de riqueza do patrimônio público nacional para setores privados; tem acontecido uma brutal transferência de recursos nacionais para os centros do capitalismo, já que as empresas estrangeiras beneficiadas com recursos baratos do BNDES estão ajudando a reduzir o impacto da crise nos países de suas matrizes. É preciso ter claro que essas e outras medidas, como as isenções de impostos, procuram garantir a estabilidade do capital, podem aumentar as margens de lucros – e praticamente nada refletem diretamente na melhoria dos salários e das condições de vida do povo brasileiro.
Assim, o estímulo ao crédito e ao consumo desenfreado – para manter a economia aquecida – não está devidamente acompanhado de aumento da massa salarial e ou do poder aquisitivo das classes médias; os indicadores econômicos indicam que a massa salarial diminuiu no último ano, o que significa menos dinheiro nas mãos dos trabalhadores. Portanto, o aumento de consumo está sendo garantido pela facilitação do crédito, o que, em algum momento, gerará uma reação parecida com aquela que eclodiu na crise de setembro de 2008, nos Estados Unidos, quando os compradores de imóveis ficaram inadimplentes e provocaram uma quebradeira em cadeia no sistema financeiro.
Resta saber até quando é possível manter o consumo sem promover efetiva e real distribuição de renda, sem reduzir os altos índices de desemprego, sem aumentar solidamente a massa salarial e o poder de compra dos salários. Resta saber até quando o caixa do tesouro nacional vai conseguir impedir o estouro da bolha que vem sendo assoprada desde o último trimestre de 2008. Muita atenção! No capitalismo todas as crises são pagas pelos trabalhadores.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista, editor da Caros Amigos e professor da PUC-SP

Fonte: Caros Amigos

 

 
 

 


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