Mudanças na forma de ingressar nas universidades federais e alterações na estrutura curricular de cursos superiores. Estes são alguns dos objetivos idealizados pelo Projeto Universidade Nova, criação do Reitor da Universidade Federal da Bahia, Naomar de Almeida. O reitor vem percorrendo as universidades federias apresentando seu projeto de reestruturação do ensino de graduação nas instituições, no qual a idéia principal é um bacharelado interdisciplinar (BI) de três anos,com diploma e formação profissional posterior.
A UniNova, como foi chamada pelo reitor da UFBA, na aula inaugural proferida na UFRJ, quarta-feira, dia 13 de março, não propõe nenhuma mudança na estrutura atual da pós-graduação. Apenas reforça a divisão dos mestrados em acadêmicos e profissionais e admite que alunos do bacharelado ‘com excepcional desempenho’ possam ingressar diretamente na pós-graduação, sem a necessidade da formação profissional ou de uma licenciatura.
Polêmica
O projeto Universidade Nova tem sido tratado entre seus defensores como a solução para os problemas de acesso e permanência dos alunos nas instituições superiores de ensino (IES). Para Paulo Rizzo, presidente do ANDES-SN, o projeto é mais um capítulo da reforma universitária em curso cuja principal qualidade é maquiar as estatísticas do ensino superior no Brasil sem resolver seus principais problemas de forma permanente: mais financiamento público, autonomia universitária e maior acesso e condições de permanência dos alunos nas universidades.
Os principais “méritos” do Universidade Nova, propagados por seus entusiastas, são: fim da precocidade na escolha da carreira profissional, da seleção “pontual” e traumática para ingresso na graduação, da elitização da educação superior pública, e do distanciamento entre os cursos de graduação e pós-graduação, entre outros. Esses fins seriam atingidos com as alterações no modelo de ingresso nas IFES e com uma reestruturação da grade curricular, instituindo-se o BI (bacharelado interdisciplinar).
O que ainda não está definido é a forma como os novos estudantes ingressarão nas universidades e como será feita a transição entre os níveis acadêmicos - bacharelado interdisciplinar, especialização, mestrado e doutorado. Com relação ao ingresso, cogita-se a possibilidade do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) substituir o vestibular.
Lighia B. Horodynski-Matsushigue, do GTPE (Grupo de Trabalho Política Educacional) e diretora do ANDES-SN na Regional São Paulo, avalia que o governo tem sentido a cobrança da sociedade por uma universidade capaz de atender às demandas de ingresso e por isso tem lançado mão de soluções simplistas que, no máximo, disfarçam os problemas reais maquiando as estatísticas. |
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A despeito de ainda não ter definidos os principais eixos, o projeto tem a simpatia e o apoio do Ministério da Educação (MEC). O reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) argumenta que a universidade precisa estar em sintonia com as demandas do mercado de trabalho. Segundo ele, o projeto Universidade Nova não surge como uma alternativa à reforma universitária, mas “é a verdadeira reforma universitária para os que a propõem, pois a proposta do governo não atinge aspectos acadêmicos”, argumenta.
Para Paulo Speller, presidente da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior), o Universidade Nova é um complemento à reforma proposta pelo governo.
A Universidade Federal do Paraná ainda não tem uma posição definida sobre o projeto Universidade Nova. Nilton Brandão, chefe de gabinete da Reitoria da UFPR, explica que a questão ainda está em debate tanto entre as universidades quanto no governo federal. No momento certo a UFPR encaminhará o tema para discussão nos Conselhos Superiores.
Segundo o Presidente da Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR-SSind), Cláudio Tonegutti, o Sindicato está acompanhando a discussão nacional dentro do GTPE do ANDES-SN com o objetivo de aprofundar os estudos para formalizar uma posição. “O grande problema é que a proposta não está clara. Alguns aspectos do Universidade Nova nos preocupam bastante. São velhos projetos que estão inseridos nesta terminologia”, coloca Tonegutti.
Rosi Leny Morokawa, estudante de filosofia, integrante da Frente de Luta Contra a Reforma Universitária (Comitê da UFPR) afirma que o movimento estudantil também enxerga o Projeto como um apêndice do PL 7200/06 que tramita no Congresso e como a continuidade da implementação da Reforma Universitária.
Incoerências
Para Lighia, o problema central do Universidade Nova é que o governo quer ampliar o acesso ao ensino superior sem aumentar os investimentos sociais e na educação. “O problema não está no ciclo básico [bacharelado interdisciplinar], mas no fato de se propor a ser um ranking. Toda vez que o ciclo básico for utilizado como um ranking para a escolha da profissão, o estudante posto em frente a uma situação de pressão vai procurar se sair bem utilizando métodos ilícitos”.
Além disso, Lighia argumenta que esse projeto não é novo. “O projeto da Academia Brasileira de Ciências (ABC) também propõe um ciclo básico, no qual você pode admitir o número muito maior de estudantes. Se o Universidade Nova for adotado haverá classes superlotadas”, afirma a professora. Para ela, o processo de competição entre os alunos será bastante acirrado nos três anos do ciclo básico e algumas profissões acabarão ainda mais elitizadas. “Isso pode favorecer ainda mais o mercado privado, que continuará oferecendo os cursos completos para quem puder pagar”, completa.
Lighia ainda prevê que a implantação do Universidade Nova acabará por ampliar a distância entre os centros universitários “de excelência” e os de “segunda linha”. Isso se refletirá, inclusive, na atividade docente. “Nos ciclos básicos os professores darão mais aulas e terão menos tempo para pesquisas, acabarão atuando mais como monitores em disciplinas muito isoladas, em sua apresentação e avaliação, em função do critério de notas”, acredita.
Rosi é da mesma opinião. “O projeto Universidade Nova retoma os “ciclos básicos” presentes na época da ditadura militar propondo os bacharelados interdisciplinares de formação geral em humanidades, artes, tecnologia e ciência, com duração de três anos, sendo que parte das disciplinas poderá ser administrada a distância. Após essa formação geral, apenas alguns alunos, com rendimento “excepcional” e que passem por seleções, ingressarão em programas de pós-graduação, tendo que disputar entre si vagas, predominando assim o sentimento de competição e individualidade. Ou seja, o projeto prevê a formação rápida de mão-de-obra massificada para ingressar no mundo do trabalho precarizado e ao mesmo tempo que apenas uma elite produza conhecimentos estratégicos para as classes dominantes,” afirma. Para ela, outra incoerência é a proposta de ampliação de vagas sem o aumento do número de docentes, dobrando o número de aluno por professor já existente.
A principal ação dos estudantes em relação ao projeto está em incorporar a discussão na campanha contra a reforma universitária. “O que podemos fazer é apostar nas mobilizações, ampliando os comitês locais e as discussões, nos somando aos professores e técnicos-administrativos que defendem hoje uma universidade pública gratuita e de qualidade,” completa Rosi.
Durante o fechamento desta edição, acontece na Universidade de Brasília o II Seminário Nacional Universidade Nova: Anísio Teixeira e a Universidade do Século 21(29 a 31 de março), para discussão e apresentação das diretrizes do Projeto Universidade Nova com palestras e debates entre profissionais de educação de todo o país.
Ares de Europa, briga de mercados
Naomar de Almeida também fez alusão, em sua exposição na UFRJ, à reforma da Educação Superior que vem sendo debatida na comunidade européia como outro elemento inspirador da UniNova. O processo de Bolonha, como é conhecida a reforma universitária na Europa, é uma tentativa de países como Inglaterra, Itália, Alemanha e França de incrementar a formação de mão-de-obra qualificada que possa se estabelecer em qualquer nação do mercado comum europeu, e fazer frente ao avanço tecnológico de países centrais como os Estados Unidos e Canadá. O processo não tem, no entanto, a adesão das comunidades universitárias das instituições dos 29 países que assinaram a Declaração de Bolonha em 1999. A reforma universitária de lá, aliás, tal como aqui, é um projeto de governos neoliberais e não da necessidade legítima de educadores e estudantes. E há, ainda muita resistência, principalmente das comunidades universitárias de instituições francesas ao modelo de certificação única proposto na Declaração de Bolonha.
FONTE: Informandes on-line e Ana Manuella Soares-ADUFRJ |