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José Maria de Almeida é metalúrgico, diretor da Federação Democrática dos Metalúrgicos de Minas Gerais, que representa na Coordenação da CONLUTAS. Iniciou sua militância sindical no ABC Paulista em 1977. Foi candidato a Presidente da República nas eleições de 1998 e 2002 pelo PSTU. Nessa entrevista, concedida após sua participação na solenidade de abertura do 26º Congresso do ANDES-SN, Zé Maria explica a estrutura da CONLUTAS, fala sobre a importância da filiação do ANDES-SN à central e opina sobre política na América do Sul e no Brasil. Também explica os objetivos do Encontro Nacional do próximo dia 25, que reunirá várias entidades de movimentos sociais e do movimento sindical para elaborar um plano de lutas comum contra as reformas da previdência, universitária, trabalhista e sindical. |
Qual a importância da filiação do ANDES-SN para a CONLUTAS?
O ANDES-SN-SN tem um papel que transcende o movimento docente, importante para todo o movimento sindical. A filiação do ANDES-SN implicaria num patamar superior da relação que já mantém com a CONLUTAS. Na verdade, o ANDES-SN está presente na construção da CONLUTAS desde o início. A formalização de uma relação significa um investimento maior e, portanto, o fortalecimento desse projeto que temos construído. Por outro lado, acho que é importante para o próprio sindicato, que em toda sua história defendeu e praticou uma concepção de luta de classe, enxergando a luta dos professores no contexto da luta geral da classe trabalhadora, em defesa dos interesses imediatos e históricos. Obviamente, um sindicato, seja ele qual for, para levar adiante um projeto como esse, precisa construir espaços de unidade com o restante da classe trabalhadora. Então, para o ANDES-SN, o fortalecimento da CONLUTAS nesse momento também é importante. Quais as implicações burocráticas da filiação do ANDES-SN à CONLUTAS?
A CONLUTAS tem uma forma de funcionamento muito flexível. Uma das preocupações que tivemos quando discutimos essa questão no Congresso [CONAT - Congresso Nacional de Trabalhadores] que constituiu formalmente a CONLUTAS como uma central sindical e popular, foi de que ela não tivesse a estrutura verticalizada e burocrática que a maioria das centrais têm. A CONLUTAS funciona como uma coordenação, e cada entidade manda sua representação para as diversas instâncias sem nenhum tipo de restrição, nem de filiação formal, nem de qualquer forma de pagamento.
A mudança mais importante que existe é o gesto político, que se traduz em uma conseqüência política para a CONLUTAS, para o ANDES-SN e para o próprio processo de reorganização que estamos reconstruindo no país. Isso é importante porque vivemos uma crise no movimento sindical que se abriu depois da ascensão do governo Lula e que é uma fase de fragmentação, de confusão na cabeça das pessoas, de fragmentação das organizações pela traição da CUT e do Lula e, portanto, construir espaços de reaglutinação para reconstruir a unidade dos trabalhadores é muito importante. A filiação do ANDES-SN fortalece esse espaço de reorganização, de reconstrução da unidade dos trabalhadores, expresso na CONLUTAS. Obviamente que do ponto de vista burocrático a filiação do ANDES-SN vai implicar em uma relação mais estreita do ponto de vista organizativo, mas preservando de forma completa a autonomia das entidades. A CONLUTAS também tem previsto no seu estatuto que as entidades que a ela se filiam mantêm sua autonomia administrativa, financeira e política. Ou seja, nenhuma entidade filiada à CONLUTAS está subordinada às suas deliberações. O que há é um processo de construção coletiva das deliberações da CONLUTAS. Oficialmente, quantas entidades estão ligadas à CONLUTAS?
Algo entre 200 e 250 sindicatos e cerca de 80 movimentos populares e organizações sociais, de maneira geral, e algumas dezenas de organizações estudantis, centros acadêmicos, DCEs, grêmios estudantis. No CONAT, fizemos uma avaliação das delegações que participaram e pelos nossos cálculos isso representou, em termos de trabalhadores excluindo os setores ligados à juventude, aproximadamente dois milhões de trabalhadores. É possível traçar um panorama da CONLUTAS no país? Em qual região a central está mais difundida?
Se fizermos um levantamento da região do país onde estão a maioria das organizações que participam da CONLUTAS hoje, o resultado seria provavelmente o Sudeste. Essa região concentra o maior número de sindicatos do país, porque seus estados possuem um maior nível de industrialização, um setor de serviços mais forte e a população também é grande, principalmente em São Paulo e Minas Gerais. Muitas organizações são de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas também existem participações significativas no resto do país. Dos sindicatos que estão na CONLUTAS, talvez a maioria, em torno de 60%, são do setor público. Os 40% são do setor privado, principalmente federações e sindicatos de base. Participam também alguns movimentos nacionais, como o MTL [Movimento Terra e Liberdade] e o MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem Teto]. Qual a opinião da CONLUTAS sobre a relação entre partidos políticos e sindicatos?
A experiência da CUT nos deixou muito preocupados com a possibilidade de que nossas organizações se atrelem a partidos ou governos e tomem o mesmo rumo que a CUT. No CONAT, discutimos sobre esse tema e tomamos resoluções categóricas com relação a isso. O que foi definido como principal nessas resoluções é garantir a autonomia administrativa, política e financeira das organizações frente ao governo. Por exemplo, a CONLUTAS é proibida, pelo seu Estatuto, de receber recursos do governo, estado ou organizações empresariais. |