Carta Aberta a respeito do PEIP
Há cerca de quinze dias, os Departamentos receberam a incumbência de preparar um “Projeto de Planejamento Estratégico Institucional Participativo - (PEIP)” para o qüinqüênio 2007-2011. Com nome pomposo e reclamando desde o título um intento democrático, o PEIP é apresentado como um documento cujo principal objetivo é implantar uma “Cultura de Gestão Estratégica” na UFPR. Dito participativo, o documento estabelece, contudo, uma “metodologia padronizada”, com etapas precisas de realização que, passo a passo, vão construindo uma forma pré-definida de elaboração dos propósitos da Universidade.
Se a metodologia padronizada e o próprio processo de implantação do PEIP por si só colocam em questão seu suposto caráter participativo, parecenos ainda mais grave o modelo de Universidade que orienta toda a sua concepção. A linguagem empregada, própria dos manuais de administração e marketing (diretamente importada do chamado “modelo SWOT”), não é despida de conseqüências. Como o documento explicita, ela veicula uma “cultura de gestão estratégica”, que estabelece como princípios orientadores do planejamento da Universidade a identificação de “oportunidades e ameaças”, de “variáveis impulsoras e limitantes”, e a construção de “cenários” de sobrevivência em um ambiente hostil. O significado derradeiro dessa categorização do mundo apresenta-se na definição dos critérios de avaliação do desempenho desejado: trata-se de medir a “eficácia dos produtos” e o “grau de satisfação dos clientes”.
O PEIP veicula, assim, a subordinação dos princípios e objetivos da Universidade a um modelo gerencial típico de empresas privadas. O documento não se furta a estabelecer que “a formulação de estratégias define, em linhas gerais, as grandes áreas de atuação futuras, temas científicos, macro-ambientes tecnológicos a focar, clientela e usuários a atender, que constarão dos objetivos estratégicos da Unidade”. Fica claro que os fins e objetivos acadêmicos, os critérios de validação científica, os propósitos de produção, divulgação e promoção do conhecimento e da cultura que constituem a identidade e razão de ser da Universidade ficam sujeitos a diagnósticos de ameaça e oportunidades, à lógica hobbesiana e concorrencial do mundo das empresas e do mercado. Aliás, os sujeitos sociais são reduzidos a “usuários, beneficiários ou clientes”. Nesta altura, cumpre perguntar: o que restou da Universidade?
No PEIP, a lógica empresarial subverte os objetivos e fins maiores a que a Universidade deveria visar, e seu caráter insidioso revela-se inclusive na subversão do princípio que fundamenta o tripé básico da Universidade, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. A “gestão institucional” e a “responsabilidade social” são erigidas a objetivos em si mesmos, ao lado daquele tripé básico. A gestão institucional torna-se um fim e não mais um instrumento para justamente garantir as condições de realização dos objetos fundamentais da Universidade. A responsabilidade social é, igualmente, considerada um item separado e estanque, com existência própria. Como a grande estratégia de marketing empresarial atualmente em voga, precisa ser alardeada como uma finalidade independente, deixando de ser simplesmente o estrito cumprimento dos objetivos que são a razão da existência da Universidade: a realização, com o máximo de excelência, do ensino, da pesquisa e da extensão.
Aparentemente inócuo e sem maiores conseqüências, o PEIP, modela a feição de uma instituição que não reconhecemos mais como universitária. No plano mais geral da sociedade, assistimos como o império do marketing esvazia a política e, com ela, o embate das diferenças, que constitui identidades sociais e projetos de futuro. Quando o sentido de bem público perde significação e valor, a política torna-se irrelevante e as possibilidades de perspectivas alternativas abrem passagem a visões unitárias e práticas autoritárias. O esvaziamento da política não deixa de se fazer, porém, sob a aparência da consulta democrática. Salientamos: o planejamento é, sim, necessário e a participação é um valor a manter. Mas insistimos que na Universidade o planejamento deve ser acadêmico, e não gerencial. Garantida aos Departamentos a formulação de seus projetos acadêmicos, é necessário ressalvar que o estabelecimento de objetivos não pode se tornar uma armadilha, com conversão de objetivos em metas quantitativas sujeitas a avaliações semestrais, como é o caso no PEIP. A consecução dos projetos acadêmicos depende da viabilização de condições que, no mais das vezes, fogem ao controle dos Departamentos.
Se a participação é um valor, ela deve ser estendida também à construção do modelo que orientará a elaboração do Projeto Acadêmico e Institucional do SCHLA e da UFPR, um projeto que respeite nossa diversidade e que tenha como fundamento a Universidade que queremos construir.
Departamento de Antropologia
Departamento de Filosofia