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24/10/2008

O Brasil na crise

Lafaiete Neves

A crise econômica iniciada nos EUA e hoje espalhada pelo mundo, em decorrência da globalização econômica e financeira, fez os governos do capitalismo central tomarem diferentes medidas de intervenção para controlar a crise.

 Sendo os EUA o epicentro da crise, o governo Bush elaborou um plano de socorro aos bancos de investimentos da ordem de mais de um trilhão de dólares. A reação dos contribuintes norte-americanos foi imediata condenando o plano de Bush, que pretendia salvar os bancos às custas dos contribuintes, mas sem garantias para cobrir os títulos podres em poder dos bancos.

O Congresso norte-americano, diante da pressão dos contribuintes, não aprovou o plano de Bush, o que obrigou o FED (Banco Central dos EUA), a ceder e preparar um novo plano com desembolso financeiro escalonado e com exigências mais duras aos bancos. Depois dessa mudança, o plano foi aprovado pelo Congresso norte-americano.  O que há de novo nesta intervenção do Estado na economia em relação a outras crises é que o governo adquiriu as ações dos bancos, logo tornando seu proprietário.

O governo da Inglaterra tomou medidas de intervenção mais duras, quando decidiu de imediato, comprar as ações de todos os bancos ingleses, numa operação de estatização do sistema financeiro. Os demais países da União Européia acabaram seguindo a decisão inglesa. A Europa, com essas medidas, foi mais rápida do que os EUA para tentar controlar a crise, criando condições para retornar a confiança no sistema de crédito bancário com a garantia dos governos europeus, que estatizou os bancos.

Com essas medidas que rompem com a política anterior praticada pelos governos Reagan nos EUA e Tatcher na Inglaterra, que permitiram a supremacia do mercado sobre o Estado ou a chamada liberalização absoluta do sistema financeiro, chega ao fim, essa fase do neoliberalismo, defensor intransigente de mais mercado e menos Estado.

No Brasil, no início da crise, o discurso do governo Lula era de que o Brasil fez a lição de casa e estava preparado para enfrentar a mesma, inclusive chamou a crise de perdas de cassino. Nas últimas semanas já mudou o discurso e tomou decisão baixando medida provisória dando carta branca ao Banco Central para socorrer os pequenos bancos de investimentos, que estão com dificuldades diante da política dos grandes bancos de não socorrerem no dia a dia com empréstimos interbancários essas instituições financeiras menores. O Ministro do Planejamento, na última semana, já acenou com recursos do BNDES para socorrer grandes empresas com dificuldades de liquidez devido a operações especulativas na bolsa, que com a crise perderam muito dinheiro. O ministro Paulo Bernardo defende esse socorro dizendo que é um empréstimo e não doação de recursos públicos, porém não diz que são empréstimos a juros subsidiados pelos contribuintes, logo o conjunto dos cidadãos brasileiros, que mesmo com grandes dificuldades, sustentam os governos com seus tributos e quando precisam de dinheiro são obrigados a pagar taxas de juros exorbitantes aos bancos e preços aviltantes às empresas, que embutem nos preços de suas mercadorias, os juros que pagam ao mercado financeiro.

Diferentemente dos EUA e da Europa o que vemos nas medidas do governo federal não tem nada de estatização com compra de ações dos bancos e empresas e sim um novo PROER às empresas e bancos, que perderam dinheiro em investimentos especulativos. A grande diferença da nossa sociedade com a dos países do capitalismo central é que lá ela reage e tem força para não permitir a farra com o dinheiro público e aqui a sociedade passiva assiste bestificada às bravatas do governo e ao uso do dinheiro público para salvar poucos aventureiros, que arriscaram seus lucros neste grande cassino  da especulação com ações que despencaram no mercado, porém sem risco algum, já que contam com a cobertura de um governo que se diz democrático e popular.

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Lafaiete Neves é doutor em Desenvolvimento Econômico pela UFPR e professor do Mestrado em Organizações e Desenvolvimento da FAE- Centro Universitário.

 

 

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