09/10/2008
Eleições em Curitiba: quem ganha e quem perde?
Lafaiete Neves
O mapa das eleições em Curitiba não trouxe nenhuma novidade sobre os prognósticos das pesquisas eleitorais, apresentando inclusive um resultado para o prefeito reeleito Beto Richa (PSDB) superior ao projetado pelas pesquisas. Terminada a apuração, os partidos começam a fazer suas avaliações. Olhando o resultado das urnas é visível a diferença entre Beto Richa com 77,27% dos votos válidos, Gleisi Hoffmann do PT com 18,17% e os demais candidatos a prefeito do PMDB, PV, PC do B, PTB-PRB;PSOL-PCB- PSTU juntos somaram 4,53%, tendo menos votos que brancos e nulos, que somaram 5,7%.
Como explicar tamanha diferença entre o candidato reeleito e todos os demais candidatos, que somados atingiram apenas 22,7% dos votos válidos?
A resposta não é simples, se pensarmos nas duas últimas eleições (2000 e 2004) para prefeito. Tivemos segundo turno e na última eleição Beto Richa disputando o segundo turno com Angelo Vanhoni do PT. Devemos lembrar que desde as eleições de 2002 o PT se tornou um partido caudatário do PMDB e naquela conjuntura, o PMDB ainda detinha muita força eleitoral em Curitiba, o que beneficiou o PT, mesmo reconhecendo que o PT estava em alta com as eleições presidenciais de 2002.
Alguns elementos devem ser analisados para se obter uma resposta que explique o atual resultado eleitoral.
Do ponto de vista partidário devemos admitir que a aliança PT-PMDB desde 2002, arquitetada por ex-pemedebistas filiados ao PT ao longo do tempo só causou estragos ao PT, que foi se desgastando por ter sua imagem associada ao PMDB de Roberto Requião. Tanto é que o candidato do PMDB, Reitor Moreira, obteve um resultado insignificante nestas eleições não atingindo 2% dos votos. Foi um candidato que já nasceu desgastado pela imposição da sua candidatura pelo governador Requião, à revelia da base partidária. O desgaste do governo Requião refletiu nesse baixo desempenho eleitoral do seu candidato, que também teve um fraco desempenho no horário eleitoral não empolgando a militância partidária, tampouco a universitária. Devemos lembrar que a candidata do PT na campanha eleitoral buscou apoio do governador Requião, que acabou abandonando o candidato do seu partido liberando a sua imagem para o uso dos candidatos à prefeito dos demais partidos, que o apoiaram no segundo turno para governador, em 2006.
É necessário ainda analisar que a candidata do PT saiu da convenção partidária desgastada tendo sido a escolhida do partido com apenas cem votos de diferença do deputado estadual Tadeu Veneri. Ganhou, mas não levou, pois ficou sem a militância que foi determinante no bom desempenho do PT em eleições anteriores. Iniciou sua campanha com um slogam “Melhorar o que está bom” que significou uma derrota anunciada. O PT há muito, desde que passou a ser governo, perdeu o encanto que tinha enquanto oposição aguerrida que foi. A campanha de mídia não teve qualquer ensaio de crítica política e ideológica à candidatura de Beto Richa. Ou seja, o PT de Curitiba abandonou uma postura de enfrentamento, diferentemente do PT de outras capitais (Salvador, Porto Alegre, São Paulo), que marcou posição de críticas contundentes às administrações dos partidos no poder, naquelas capitais. O que explica a baixa votação do PT em Curitiba nestas eleições, em relação às duas eleições anteriores, em que a crítica foi mais contundente a Cássio Taniguchi e Beto Richa. O que levou o PT para o segundo turno e quase ganhando as eleições se Vanhoni não tivesse recuado nas críticas no segundo turno. Naquela conjuntura, o eleitorado tinha maior clareza de quem era situação e oposição em Curitiba. Nestas eleições, o eleitorado não foi colocado claramente diante de um quadro bem definido programática e ideologicamente. O que demonstra que os partidos, que disputaram as eleições com Beto Richa, eram fracos e não souberam fazer oposição.
Temos que considerar também que o atual prefeito fez uma administração com uma aparência de democracia que funcionou. Isto por que buscou estar próximo à população pelas obras que fez, pelas audiências públicas nas quais o povo, mesmo não decidindo, era consultado sobre as obras a serem executadas nos bairros e pela propaganda da suas obras na mídia e isto ele capitalizou muito bem.
Outro dado dessas eleições que é determinante é a composição da Câmara Municipal, na qual o prefeito ampliou sua maioria pela coligação que fez, tendo o seu partido o PSDB sozinho eleito 13 vereadores. O PMDB ficou reduzido a 2 vereadores e o PT de 5, ficou apenas com três cadeiras, sem dúvida alguma reflexo do fraco desempenho eleitoral da candidatura majoritária. A perda não está apenas no número de cadeiras para a oposição e sim em bons quadros políticos, que não se reelegeram para a Câmara Municipal de Curitiba.
Já se fala que o prefeito reeleito tem sonhos mais altos, disputar as eleições para governador do estado em 2010. Mas será outra eleição, assim como o vôo pode ser mais alto o tombo também. Veja a candidata do PT que por pouco não foi eleita senadora em 2006, tendo sua maior votação em Curitiba e nestas eleições confiando tanto neste belo desempenho eleitoral para o Senado, teve apenas 18% dos votos. Logo não é tão simples repetir um fenômeno eleitoral.
_____________
Lafaiete Neves, Doutor em Desenvolvimento Econômico pela UFPR e professor do Mestrado em Organizações e Desenvolvimento da FAE- Centro Universitário – E-mail: l.lafa@terra.com.br