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04/04/2008

A medicina e os 200 anos de escolas médicas

Antonio Celso Nunes Nassif

�A esperança enxerga o invisível, sente o intangível e alcança o impossível�.

Na década de 60, um ministro de Estado inconformado com a resistência da categoria em trabalhar por preço vil, teria afirmado que �providenciaria a formação rápida e efetiva de tantos médicos do Brasil que, logo, estes viriam em massa e de joelhos procurar trabalho a qualquer preço�. Essa posição política inconseqüente e de certa forma concretizada atingiu, deliberadamente, o ensino médico, com suas repercussões desastrosas no exercício da profissão.

Um pequeno histórico serve como comprovação. As duas primeiras escolas médicas do Brasil foram criadas em 1808, uma na Bahia e outra no Rio de Janeiro. Em 1960, eram 29 as escolas de medicina no país, passando a 73 em 1971. Mas, isso não foi o suficiente. Nesse mesmo período, nas escolas já existentes, o número de vagas ofertadas para o primeiro ano mais que dobrou. Passou de 3.800 para quase 9.000. No governo Collor, o então ministro Carlos Chiarelli �conseguiu� aumentar em 10% o número de vagas nos cursos superiores das universidades federais. Isto significou, nos de medicina, aproximadamente mais 800 médicos/ano, ou, se quiserem o equivalente a criação de dez escolas médicas com 80 vagas.

Já, em fins de 1999 nosso país esbanjava uma centena de escolas médicas. O mais assustador é que, só neste início de século foram criados 75 novos cursos de medicina colocando o Brasil, com 175 escolas médicas, em segundo lugar no ranking mundial perdendo apenas para a Índia com 272, mas deixando longe a China com 150 e os EUA com 126 escolas médicas.

Pelos favores políticos feitos a alguns é que nos estão saindo médicos �fabricados� no afogadilho de cursos em fins de semana; médicos sem o estágio em Residência devido à insuficiência de vagas e escolas sem hospitais; médicos - o que é sumamente grave - a quem se confere um diploma pela simples contribuição dada à receita das respectivas "faculdades".

Por outro lado, é impossível, hoje em dia dissociar a formação do médico da remuneração digna que deve receber. Há que se acabar, também, com a falsa idéia de que o exercício da medicina é puro sacerdócio. A maioria dos médicos trabalha sem horários regulares e sob tensões permanentes. Para ser eficiente e resolutivo, exige preparo técnico e científico constante e pressupõe uma situação financeira equilibrada. Isto custa tempo, dedicação e dinheiro.

Por isso, citando Tancredo Neves: �A dignidade dos honorários médicos não é apenas um ato de justiça, mas uma necessidade geral da sociedade, que necessita de profissionais estimulados e tranqüilos, pois lhes cabe lidar com o valor absoluto de cada um que é a vida, e não o podem fazer com as mãos trêmulas de ansiedade�.

O ministro Haddad, sentindo a gravidade do problema, passou a defender o ensino médico com qualidade, e o MEC busca urgentemente editar um novo instrumento de autorização dos cursos de medicina mais rígido e que atenda esse objetivo. Não poderia ser de outra forma, pois, a continuar essa liberação desordenada, a banalização da profissão médica será inevitável.

O que não se pode permitir é o desabamento da estrutura do ensino superior brasileiro, com a criação de cursos de medicina sem mínimos recursos, sem hospital na região, sem corpo docente, sem bisturi .

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Antonio Celso Nunes Nassif , Doutor em Medicina pela UFPR. Foi presidente da Associação Médica Brasileira . acnnassif@netpar.com.br

 

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