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19/03/2008
Atentado à ciência
Lafaeite Santos Neves
O assassinato de Maria Benigna de Oliveira, professora e pró-reitora de pesquisa e Pós-Graduação da UFPR, pesquisadora do CNPQ, ocorrido há uma semana, causou uma enorme comoção na sociedade paranaense, com repercussão nacional.
Esse crime brutal trouxe profunda dor e indignação não só para os seus familiares, amigos, mas para a comunidade universitária à qual essa reconhecida pesquisadora prestou relevantes serviços no ensino, na pesquisa e na extensão. Ela participava de um dos centros de pesquisa mais importantes em nível nacional e internacional na área de bioquímica, do Departamento de Bioquímica da UFPR, lugar em que se destacaram excelentes cientistas. O seu lugar dificilmente será preenchido na pesquisa no ensino da graduação e da pós-graduação em nível de mestrado e doutorado, onde contribuiu com a formação de centenas de mestres e doutores.
Se olharmos sobre o prisma socioeconômico, vamos ver múltiplas análises tentando explicar as causas do crime. Elas podem estar corretas, mas não dão conta da dimensão da perda.
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Temos também que voltar nosso olhar sobre o sistema financeiro. Afinal, a professora foi a uma agência bancária, presumidamente segura e de lá saiu seguida por dois assassinos que a executaram friamente, dentro da sua residência, para roubar algum dinheiro.
A grande pergunta que os bancos, não importa que sejam públicos ou privados, precisam responder à opinião pública é sobre o sistema de segurança para os seus correntistas. Não é possível aceitar que não haja proteção alguma àqueles que procuram as agências bancárias para executar operações financeiras. Os bancos gastam muito para proteger seu patrimônio e nada para proteger seus correntistas. Ir hoje a uma agência bancária é correr risco de vida.
São escandalosos os dados divulgados recentemente sobre os lucros dos bancos. Em 2007, chegaram a R$ 45,39 bilhões, valor 35% maior que os lucros de 2006. Esses dados estão nos balanços de 101 instituições financeiras entregues ao Banco Central. A cobrança das tarifas bancárias representaram para o setor um faturamento de R$ 55,97 bilhões, valor 17% maior do que o apurado em 2006. As tarifas bancárias estão cobrindo toda a folha de pagamento dos bancos e ainda lhes sobra 25% de lucro.
Os bancos passaram por um processo intensivo de inovação tecnológica, que levou a um brutal desemprego no setor. Em 1980, o sistema bancário tinha 800 mil trabalhadores; hoje tem 300 mil. É isso que explica a alta lucratividade, maior que a de qualquer atividade econômica produtiva, e que mais contribui para sustentar a alta taxa de lucros. O Estado brasileiro, somente no primeiro mandato do governo Lula, destinou aos bancos o pagamento de R$ 600 bilhões em juros.
A grande realidade é que hoje não há qualquer impedimento para que assaltantes entrem numa agência bancária, principalmente à noite, para atacar clientes. Para diminuir custos com segurança eletrônica, as portas não têm mais exigência de identificação dos clientes. Qualquer pessoa pode acionar um botão e entrar na agência. Os vigilantes só permanecem durante o dia. Essa economia dos bancos com a segurança é responsável pela perda de milhares de vidas de seus clientes. O que interessa é apenas o lucro líquido.
Os funcionários estão trabalhando sob enorme pressão para cumprir metas, tendo de empurrar produtos para os clientes, para garantir essas altas taxas de lucros em troca de um mísero salário.
Os clientes, pasmem, trabalham de graça para os bancos cada vez que recorrem ao auto-atendimento em caixas eletrônicos ou na internet. Ajudam a aumentar o lucro dos bancos com seu trabalho gratuito e, de quebra, a eliminar postos de trabalho dos bancários. E o governo nada faz. Pelo contrário, contribui enormemente para essa sanha pelo lucro.
Sob o prisma da segurança pública federal e estadual, com certeza podemos ver que está falida. Não adianta a propaganda oficial anunciar a compra de milhares de veículos, incorporação de novos contingentes de policiais se eles não estão onde mais a população precisa, nos locais mais cobiçados pelos ladrões. O efetivo policial só funciona se houver uma política de segurança pública eficiente e confiável e isso não está acontecendo no Paraná � a cidade de Curitiba é considerada hoje uma das mais violentas do país. Para comprovar isso, basta ler os jornais do último fim de semana, com o registro de dezenas de mortes executadas por assassinos recém-saídos das prisões. O sistema prisional é hoje a mais eficiente escola do crime.
Lafaiete Neves, professor de Economia aposentado pela UFPR, leciona na Unifae � Centro Universitário Franciscano do Paraná. l.lafa@terra.com.br
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