08/02/2008
A importância das contas externas no crescimento sustentável
Luciano Nakabashi
Guilherme R. S. Souza e Silva
As condições externas e internas que favorecem o crescimento da economia brasileira são as melhores das últimas três décadas. Na análise de alguns indicadores do nível de atividade industrial do IBGE, os resultados são animadores. A importância da análise da indústria se deve ao fato de que este é o setor que mais responde ao otimismo dos empresários e consumidores em períodos de crescimento econômico.
No acumulado de 2007, a produção industrial cresceu 6,0%. Adicionalmente, a produção de bens de capital foi de 19,5%, o que indica o elevado grau de otimismo dos empresários e, conseqüentemente, do aumento dos investimentos. Observa-se, também, a expressiva elevação da produção de bens de consumo duráveis (9%), sinalizando o otimismo dos consumidores em relação ao futuro próximo.
Esse otimismo dos consumidores é justificado pela melhora nos indicadores de emprego e salários da indústria. Utilizando os dados de 2007, verifica-se que a variação no emprego do pessoal assalariado ocupado na indústria é de 2,1%. Além disso, o número de horas pagas aumentou em 1,8% e a folha de pagamento real teve um incremento de 5,3%.
Outro fator importante nesse processo é o setor externo da economia brasileira. As exportações continuam impulsionadas pelo bom desempenho da economia internacional e, de acordo com dados do Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o Brasil obteve um saldo na balança comercial (saldo entre exportações e importações) de pouco mais de US$ 40 bilhões, em 2007. Esse expressivo superávit é essencial, pois serve como blindagem contra as crises externas.
Apesar do bom cenário, alguns indicadores preocupam. Já é possível notar uma queda na taxa de crescimento das exportações desde 2005. Adicionalmente, as taxas de crescimento das importações vem se elevando e elas são maiores do que as das exportações desde 2005. O reflexo é que, o saldo da balança comercial em 2007 foi menor do que aqueles alcançados em 2005 e 2006.
A relevância desse processo é que a melhora na �saúde� da economia brasileira, nos últimos anos, está atrelada ao bom desempenho da balança comercial e da conta corrente, sendo que esta indica se o Brasil está concedendo ou tomando empréstimos do resto do mundo.
Com a queda do superávit comercial, também começa a surgir uma ameaça sobre o saldo da conta corrente e, desse modo, sobre a necessidade de se captar recursos do resto do mundo, deixando a economia mais vulnerável a choques externos.
Olhando para a história recente da economia brasileira, a dependência da entrada de recursos externos tem sido um dos principais entraves ao seu crescimento. Assim, um dos requisitos para a manutenção do seu bom desempenho, no médio prazo, é a manutenção de um superávit na balança comercial em um nível que não gere crescimento com dependência de poupança externa.
A situação fica ainda mais preocupante quando se considera a mudança no cenário externo devido a recessão da economia americana, que começa a tomar forma. Dependendo da magnitude dos seus efeitos sobre a economia internacional, que pode ser grande, o saldo da balança comercial irá se reduzir de forma considerável, afetando a vulnerabilidade externa da economia.
A conclusão é que não se deve deixar de olhar o desempenho das contas externas caso o objetivo seja a manutenção do crescimento da economia brasileira no médio prazo. Caso contrário, estaremos novamente desperdiçando uma oportunidade de entrar na rota do crescimento sustentável.
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Luciano Nakabashi . Doutor em economia, professor adjunto do Departamento de Economia da UFPR e coordenador do Boletim de Economia & Tecnologia.
Guilherme R. S. Souza e Silva. Mestrando em Desenvolvimento Econômico pela UFPR e Consultor do Instituto de Desenvolvimento Gerencial (INDG).