UNIVERSIDADE DE CLASSE INTERNACIONAL: UMA NECESSIDADE PARA O BRASIL
Clóvis Pereira da Silva
Nos países desenvolvidos atualmente o tema que mais tem preocupado os governos e as lideranças universitárias é o da diferenciação da qualidade. Existe uma consciência crescente de que não adianta expandir o ensino superior indefinidamente, a um custo crescente para o setor público e para os estudantes e suas famílias, sem que isto se traduza em benefícios sociais efetivos. Essas pessoas têm se preocupado com a globalização, e com a capacidade de continuar participando e se beneficiando de um mundo cada vez mais competitivo, e no qual o conhecimento desempenha um papel cada vez mais importante. Para isto, universidades de padrão e classe internacionais são consideradas essenciais. É neste tema que tais lideranças têm trabalhado com afinco.
Universidades de classe internacional são importantes e necessárias por vários motivos, e não somente por causa da necessidade de competir em ciência e tecnologia. Não é verdade, como às vezes se diz, que a nova economia do conhecimento requer que todas as pessoas tenham nível universitário, e se transformem em especialistas em tecnologias avançadas.
Em vários países, o setor de emprego que mais cresce é o dos serviços, alguns mais sofisticados, outro menos, e o mercado de trabalho de alta qualificação com elevados salários tem tamanho reduzido, justamente pelas tecnologias poupadoras de mão de obra que utiliza. Existe um amplo espaço, porém, para pessoas de diferentes tipos de formação, e sobretudo para pessoas de formação ampla e geral, que saibam escrever bem, que dominem outras línguas, e que entendam o contexto social em que vivem. Universidades de classe internacional devem desenvolver ciência e tecnologia, mas também devem desenvolver cultura, formação geral, conhecimento e capacidade de entender o que ocorre no país e no mundo. Elas devem formar excelentes: professores, pesquisadores, diplomatas, altos funcionários públicos, políticos, jornalistas, historiadores, advogados, engenheiros, economistas, médicos, entre outros profissionais.
Universidades de classe internacional devem servir de ponte de contato e comunicação entre o país ao qual pertencem e outros países, e servirem de padrão de referência de qualidade e relevância para outras instituições do mesmo país. Universidades de classe internacional são a única maneira inteligente de lidar com a globalização crescente do ensino superior, que se manifesta desde a criação de campi avançados das grandes universidades européias e norte-americanas em outras partes do mundo, até a difusão da indústria internacional do conhecimento, liderada por grandes empresas, através da internet ou por sistemas de franchise educacional.
O tema, indústria internacional do conhecimento, tem sido levado por alguns países, entre os quais a Inglaterra e a Austrália, à Organização Mundial do Comércio - OMC, com propostas para a liberação do comércio internacional de serviços, dentre os quais se incluiriam os serviços educacionais. Devemos ter em mente que não é possível imaginar que se possa deter esta tendência mundial fechando as portas de nosso país a este movimento, ou estabelecendo monopólios educacionais a instituições nacionais, independentemente de sua qualidade. Mesmo porque o patriotismo anda em baixa atualmente em nosso país.
Havendo no país universidades de classe internacional que possam servir de referência e modelo para outras, a invasão internacional da indústria do conhecimento pode ser entendida como o que ela de fato é, uma forma a mais de circulação de idéias, produtos e serviços em um mundo globalizado, do qual queremos fazer parte. Obviamente que não poderemos desejar que todas as universidades de um determinado país tenham o padrão de instituição de classe internacional. Mas podemos desejar que algumas delas possam aspirar a isto, e que seus gestores sejam estimulados a procurarem para suas universidades o status de classe internacional. No Brasil as autoridades constituídas e responsáveis pela gestão da educação, ciência e tecnologia devem incluir este tema nos seus planos de gestão.
Vale a pena explicitar quais as características que uma universidade de classe internacional precisa ter para justificar este nome e o que se espera dela.
Primeiro. A pesquisa de qualidade reconhecida internacionalmente. Para isto, é necessário que a universidade tenha professores possuidores de excelentes Curriculum Vitae , e que ela propicie condições adequadas de trabalho e boa remuneração para atrair os melhores talentos. As condições de trabalho devem incluir estabilidade profissional para os mais qualificados, e os salários devem ser suficientes para impedir que os melhores professores sejam atraídos pelo setor privado ou por outras universidades no país ou no exterior.
Segundo. Liberdade de pesquisa, ensino e expressão. Os professores, pesquisadores e estudantes devem ter liberdade para definir seus temas, suas linhas de pesquisa, e expressar suas idéias, sem limitações ou constrangimentos de natureza política ou burocrática. Esta liberdade não deve se limitar aos temas de especialidade de cada professor, mas deve incluir a liberdade de expressão e manifestação sobre temas de interesse social e cultural mais amplos, de interesse de toda a sociedade.
Terceiro. Autonomia acadêmica. As universidades de padrão internacional, através de seu corpo docente que deve ser mais qualificado que outras universidades, devem ter liberdade para definir seus temas, suas prioridades, seu currículo, suas missões, os processos de contratação e demissão de professores e admissão de alunos, e os critérios para a concessão de títulos e diplomas.
Quarto. Infra-estrutura. São necessários laboratórios e bibliotecas atualizadas, acesso amplo a bancos de dados nacionais e internacionais, e condições adequadas de trabalho para professores e alunos (escritórios, salas de aula, apoio administrativo, manutenção permanente dos edifícios e da infra-estrutura).
Financiamento. Universidades de alto padrão são cada vez mais caras, não é possível substituir a formação personalizada por tecnologias de qualquer tipo, e nem todas as áreas de pesquisa têm facilidade para conseguir recursos externos. Universidades de classe internacional, para existirem, requerem apoio financeiro substancial e permanente do setor público.
Além disso, elas devem possuir também as seguintes características: o cosmopolitismo e a diversidade. Universidades de classe internacional são compostas não somente por professores formados em diversas partes do mundo, mas também devem possuir em seus quadros docentes de alta qualificação e oriundos de vários países. Além disso, elas também devem atrair talentosos estudantes do país e de outros países. Desta forma, elas criam um ambiente em que a experiência local é contrastada, todo o tempo, com a experiência de outros países, não somente em relação aos conteúdos das pesquisas e cursos ofertados, mas, sobretudo, em relação a todos os aspectos imponderáveis que só conhecem aqueles que tiveram a experiência de conviver com culturas distintas. O uso da língua inglesa é essencial.
A diversidade tem a ver com o tema da inclusão social, mas é muito mais do que isto. Universidades de classe internacional têm que estar abertas a pessoas de diferentes origens culturais e sociais, e abrir espaços para o surgimento e fortalecimento de novas lideranças. Isto é feito, em parte, por inteligentes políticas de seleção de estudantes e professores que levem em conta a diversidade, e pela criação de cursos e programas de ensino e pesquisa também diferenciados. Se bem conduzidas, estas políticas não têm porque comprometer os valores de excelência acadêmica e de formação profissional, e representam um importante enriquecimento da vida universitária nacional.
Não cremos que a volta ao passado seja a conclusão que se deve tirar do acima exposto. O que parece certo é que, primeiro, em todo o mundo, as universidades que hoje possuem padrões de classe internacional são as mais tradicionais, que conseguiram manter, ao longo dos anos, sua cultura de autonomia e padrões de qualidade na seleção de seus professores e formação de seus alunos. Dinheiro é importante, mas somente com dinheiro é muito difícil, senão impossível, recriar este tipo de cultura, e, sem ela, é difícil atrair os melhores talentos e obter os melhores resultados.
A segunda observação é que, para continuar mantendo seus valores antigos, estas universidades precisam se transformar e modernizar profundamente. O segredo e a dificuldade estão em combinar estas duas coisas, o melhor da tradição acadêmica e as transformações ousadas que precisam ser feitas. Lembramos que as autoridades inglesas responsáveis pelas coisas da educação estão trabalhando fortemente para transformar as universidades de Oxford e de Cambridge em instituições de classe internacional.
Além da Inglaterra, autoridades da Alemanha, Austrália, Nova Zelândia, China e Coréia do Sul estão trabalhando seriamente para criarem em seus países universidades de classe internacional. Devemos pensar em criar em nosso país um excelente sistema de graduação, e também devemos pensar em criar universidades de classe internacional. Quais seriam as universidades públicas candidatas? Relembremos as palavras de Ortega y Gasset: Certamente, quando uma nação é grande, boa também é sua escola. Não existe nação grande, se sua escola não for boa. (cf. Ortega y Gasset, 1999, p. 52)
Referências
José Ortega y Gasset. Missão da Universidade. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.
Philip G. Altbach . The Costs and Benefits of World-Class Universities. International Higher Education, outono de 2003.
Simon Schwartzman. A Universidade de São Paulo e a Questão Universitária no Brasil. In Steiner, E. J.; Malnic, G. (orgs.) Ensino Superior. Conceito e Dinâmica. São Paulo: EdUSP/IEA. 2006.
Docente aposentado pelo Departamento de Matemática da UFPR. Membro da atual Diretoria da APUFPR. Consultor da CAPES.