10/07/2009
BICHO HOMEM
Prof. Renato Roxo Coutinho Dutra e Profª Marion do Rocio Foerster
Dia 5 de junho. Dia Mundial do Meio Ambiente. Acordamos esperançosos e sintonizamos o rádio na emissora CBN, pois esperávamos ouvir alguma notícia relacionada com a preservação ambiental, entretanto, levamos um banho de água fria. Estava sendo reproduzida parte do discurso do Senador Mozarildo Cavalcanti (PTB – RR), pasmem, Presidente da Subcomissão da Amazônia e da Faixa de Fronteira; infelizmente, não conseguimos acreditar no que escutamos. Resolvemos buscar na Internet a íntegra do discurso e, após encontrá-la, constatamos que era tudo verdade. Desencanto e frustração, mais uma vez, com os representantes do povo brasileiro no Poder Legislativo e preocupação com o futuro, já que a preservação da floresta está nas mãos de pessoas totalmente despreparadas.
www.senado.gov.br/sf/atividade/pronunciamento/detTexto.asp?t=37959
Falando sobre a Amazônia, o Senador proclama: “Não se pode explorar madeira, porque a madeira é uma espécie de santo, como se a árvore não fosse um ser vivo, que nasce, cresce e morre, embora haja pessoas que digam e defendam, mesmo os ecoxiitas, que tem que haver o chamado manejo sustentável...” [...]
“É por isso que nós queremos fazer, sem xenofobismo interno, um diagnóstico real da Amazônia... [...] sem negócio de ideologia, sem partidarismo, sem paixões, sem religião, mas com ciência, um diagnóstico que beneficie as pessoas em primeiro lugar, o meio ambiente em segundo lugar, e os bichos em terceiro lugar”. [...]
“Agora, é um absurdo... [...] que o nosso dinheiro... [...] Pode ver. Você pode pegar... [...] Pegue uma nota de um real, de dois, de cinco, de dez, de cinqüenta, de vinte, de cem. O que tem nelas? Só bicho, é só animal, não tem ser humano, um vulto histórico. O Brasil não tem história nas suas cédulas”.
Cavalcanti é interrompido pelo Senador Augusto Botelho (PT – RR) com um triste aparte: “Eu parabenizo V.Exª por seu pronunciamento”.
O Senador Mozarildo Cavalcanti agradece a opinião do colega: “Senador Augusto Botelho, eu quero agradecer o aparte de V.Exª. V.Exª tem sido um Senador muito atento às questões da Amazônia...”, e continua.
Novamente Cavalcanti é aparteado, agora pelo Senador Mão Santa (PMDB – PI): “V.Exª, Senador Mozarildo, tem se preocupado muito com a problemática da terra, tem sofrido mais do que São João Batista, que falava no deserto. [...] Ô Mozarildo, aprendi com V.Exª. Se for olhar na minha carteira, não há dinheiro muito, não! Só há onça pintada, macaco, maçarico e tal”.
O Senador Mozarildo agradece: “Senador Mão Santa, agradeço a V.Exª o aparte, as palavras elogiosas”.
Pronto. Para nossa felicidade ressurge “Os três patetas”, que tanto nos fizeram rir na infância, mas, infelizmente, esses senadores só nos fazem chorar. Qualquer estudante do Ensino Médio sabe das inter-relações entre os seres vivos (fatores bióticos) e destes com os fatores abióticos (físico-químicos), constituindo um todo que chamamos de meio ambiente. Parece que os senhores senadores não prestaram atenção na aula de Ecologia.
Gostaria de fazer alguns comentários sobre os animais que estão representados nas nossas moedas e cédulas. Alunos da Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná desenvolveram um trabalho de Educação Ambiental baseado em um conjunto de moedas de Cruzeiros Reais, todas cunhadas em 1993, que apresentavam nos seus anversos as imagens dos seguintes animais: Arara, Tamanduá, Lobo-guará e Onça pintada. Infelizmente, a primeira constatação foi verificar que os quatro animais constavam da “Lista Vermelha de Animais Ameaçados de Extinção no Estado do Paraná” (SEMA/GTZ 1995).
As conclusões a que chegaram foram aquelas preconizadas em documentos do Ministério do Meio Ambiente/Ministério da Educação e pelo Professor Genebaldo Freire Dias:
• “O modelo de desenvolvimento adotado dá prioridade às questões econômicas, assumindo com muita dificuldade a sustentabilidade sócio-ambiental, o que se reflete na falta de orientação da sociedade na tomada de decisões para a melhoria da qualidade de vida” (MMA/MEC 1997:18);
• “O sistema produtivo é marcado por um modelo econômico agro-exportador que não viabiliza o desenvolvimento de práticas sustentáveis e acaba estimulando práticas consumistas em contradição com a preservação e/ou conservação de recursos naturais” (MMA/MEC op.cit.:18);
• “A questão ambiental fundamenta-se nos direitos humanos, no exercício da cidadania e em uma política de economia sustentada que deve atender as dimensões biológicas, históricas, psicossociais, econômicas, políticas e axiológicas, consideradas dentro de uma política evolucionária. Conhecimento, tecnologia e ações sociais de nada adiantarão se não estiverem apoiadas em uma autêntica transformação de valores, atividades e atitudes do homem de hoje”. (DIAS 1998)
Nas atuais cédulas de Real, encontramos representados os seguintes animais: Beija-Flor, Tartaruga-de-pente, Garça, Arara, Mico-leão-dourado, Onça-pintada e Garoupa. Qualquer pesquisa na Internet nos oferece informações preciosas sobre esses animais. Por exemplo: o Mico-leão-dourado é o símbolo da luta pela preservação das espécies brasileiras ameaçadas de extinção; a Onça-pintada é um conhecido e belo felídeo de grande porte, ameaçado de extinção e a Tartaruga-de-pente quase desapareceu devido à caça predatória.
Senhores Senadores, a presença dos animais nas cédulas de Real não é uma homenagem, mas um alerta! E, se dependermos de pessoas como os senhores, em breve a espécie humana ali estará representada, na condição de ameaçada de extinção.
Deveríamos terminar este artigo dizendo que o Senhor Senador é um animal, pois dessa forma estaríamos apenas situando a espécie humana no Reino Animalia. Porém, também estaríamos reproduzindo o sentido pejorativo que, invariavelmente, é dado à palavra “animal”. No entanto, seria uma ofensa aos animais compará-los ao Senador, então preferimos concluir de outra maneira:
Senhor Senador, suas observações e visão sobre a questão ambiental (sustentabilidade e preservação) são lamentáveis. É triste, mas é humano.
Referências bibliográficas
DIAS, G.F. 1998. Educação ambiental. Princípios e práticas. São Paulo, Gaia Editora, 402pp.
MMA/MEC. 1997. Conferência Nacional de Educação Ambiental. Brasília, Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal, 88pp.
SEMA/GTZ. 1995. Lista Vermelha dos Animais Ameaçados de Extinção no Estado do Paraná. Curitiba, Secretaria de Estado do Meio Ambiente, 177pp.